sábado, março 12, 2011

Palavra, sábia palavra, do Leo Cunha, sobre direitos autorais.


(Aquarela publicada pela Editora Nova Fronteira, no livro
"O Tesouro das Virtudes para Crianças - 3", de
Ana Maria Machado. Autora da imagem: Thais Linhares).


Emir Sader e os Direitos Autorais - por Leo Cunha.

O Emir Sader, que eu sempre considerei um cara lúcido, me soltou essa bobagem:   "a elite tem medo dos artistas e da sua criatividade sem cânones dogmáticos e sem pensar no dinheirinho dos direitos de autor, mas na liberdade de expressão e na cultura como um bem comum."   Que papo é esse, Emir? Em que emirado você está vivendo? Quem defende os direitos autorais não é nenhuma elite, são milhares de escritores e ilustradores (no caso do livros, e milhares de compositores, no caso da música, etc).    Nosso TRABALHO é criar prosa e poesia e ilustrações e merecemos  remuneração por este TRABALHO. Os direitos autorais são o nosso pagamento, o nosso salário. Não somos representantes de nenhuma elite nem nenhum grande conglomerado. Aliás, nosso grande inimigo, nesta luta em torno dos direitos autorais, é uma pequena empresa chamada Google.   Peço licença para me usar como exemplo. Eu escrevo livros infanto-juvenis há 20 anos. Me preparei para tanto há mais tempo que isso, lendo muuuuuuuito durante toda a minha vida, fazendo traduções, fazendo uma especialização em Literatura Infantil, fazendo um mestrado em ciência da informação, e agora em meio a um doutorado.   Como alguém pode ignorar que isso é o meu TRABALHO? Que eu mereço ser pago pelo meu estudo, meu esforço, minha criação?   Se você está certo em um ponto, é que os direitos autorais são, para a maioria de nós, um "dinheirinho". E muito suado. Cada livro meu que é vendido no mercado (a preços que variam de 15 a 30 reais, geralmente), me rendem de direitos autorais algo entre 1 e 3 reais. Não mais que isso.  Quando há uma compra governamental, os preços caem muito, então os autores recebem algo como 30 ou 40 centavos por livro. Centavos!   Se o livro não vende nada, eu não ganho nada. Se vende bem (o que no Brasil é incomum) eu consigo receber uma remuneração razoável. Como você vê, meu trabalho é de alto risco, ao contrário do trabalho de quem disponibiliza o PDF dos meus livros num site cheio de banners.   Quer dizer então que estes sites cheios de banners (que são pagos, obviamente) estão do lado certo, moderno, avançado, o lado da inteligência coletiva e da democracia cultural?    E eu, que exijo apenas a remuneração pelo meu trabalho, estou do lado errado, do lado do atraso? Estou do lado dos cânones dogmáticos? Só penso "no meu dinheirinho dos direitos autorais"?   Ou será que o atraso é representado por aqueles que querem derrubar este grande avanço que foi a profissionalização do artista. Assim corremos o risco da volta dos velhos mecenas (aristocráticos, religiosos, ideológicos, etc) que permitem, abonam e subvencionam apenas o que lhes interessa pessoalmente.   Repare que eu não sou contra qualquer autor disponibilizar o que quiser na internet. Eu mesmo publico, frequentemente,  poemas inéditos na minha página do Twitter. O que eu não posso admitir (e esta posição é unânime na AEI-LIJ - Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil) é que alguém - especialmente alguém com a inteligência e preparo de um Emir Sader – venha nos negar a remuneração por nosso TRABALHO.   
Atenciosamente,  Leo Cunha
By: Leo Cunha (in Facebook, reproduzido com permissão do autor, como deve ser!)

2 comentários:

Cristina Sá disse...

Olá! Thaís,
Gostei muito deste post!O Leo Cunha
foi muito feliz em suas colocações.

No sábado, no caderno PROSA & VERSO(página 6)do jornal O GLOBO, saiu uma carta da AEILIJ em apoio à
ministra Ana Hollanda.A Associação
apoia o cuidado com que a ministra
vem tratando da questão dos direitos autorais.

Thaís, acabo de criar um blog.
(Iniciei no dia 12/março/2011.No
mesmo dia que encontrei a carta
no jornal.)Aproveitei e postei esta carta na íntegra.Trata-se de um blog sobre literatura infantil e juvenil.Achei que seria oportuno divulgar este documento de peso e que representa a classe dos
escritores e dos ilustradores.
Vou agora começar um trabalho de divulgação deste blog.

um bj
CRISTINA SÁ do blog:
http:cristinasaliteraturainfantile
juvenil.blogspot.com

PS.Você desistiu da ideia do curso
que você pretendia organizar?

Como estão os trabalhos com animação?Sempre que você fala sobre
este assunto (animação), você passa
muito entusiasmo.

Thais Linhares disse...

Oi, Cristina,

Vi a carta da AEILIJ. Legal o Globo ter colocado a nossa carta lá. Já estava ficando irritante vendo um monte de gente falando sobre o que não entende. Quem sabe sobre nossa criação somos nós! E como ninguém pode obrigar ninguém a ter ideia, é no mínimo surreal que os autores não tenham o peso que merecem no debate, quando não a palavra final.

Ainda sem cursos!
Quanto à animações, me deixaram de plantão pra cenografar um novo projeto. Vamos ver como rola.

Beijo grande, sucesso pra você!