domingo, janeiro 13, 2019

90%



Um escritor, um ilustrador, o compositor de uma música, poetas... recebem em média 10% sobre os ganhos provenientes de suas criação.
Isso quer dizer quem quando um autor cria algo, pra cada 100 dinheiros que é levantado, ele fica com 10 dinheiros e vão os demais 90 dinheiros para movimentar a economia do país.
Ainda assim, agora já no século XXI, vemos aflorar do lodo da estupidez, uma ideia fruto do mais raso sendo comum: a de que artistas são "vagabundos", e pior, "parasitas" da sociedade.
O setor econômico que movimentamos é o envolve produção e difusão de Cultura, Educação e Ciências. Três pilares sobre os quais toda a sociedade é montada e a partir daí se estrutura os demais caminhos de infra-estrutura, consumo, influências.
Carregamos sobre nosso trabalho setores comerciais – livrarias, e-comerce, publicidade, influência no consumo de produtos de todas as áreas – e industriais – gráficas, fábricas de produtos diversos, inovações tecnológicas – e até do agronegócio – no caso do livro especificamente o plantio de eucaliptos pra papel, insumos pra hábitos de consumo indicados por ideias difundidas pela cultura.
É notório que quanto maior o desenvolvimento de um país, mais forte é o setor cultural e também que quanto mais forte é o setor cultural, mais desenvolvido e autônomo economicamente é um país.
Países de poucos recursos naturais, e até bem pequenos em extensão, tem em sua indústria cultural uma vantagem que lhes coloca com ganhos bem acima de países naturalmente riquíssimos mas que menosprezam (politicamente) a cultura e seus autores nacionais.
Estou vivendo pra ver o Brasil mergulhar no obscurantismo. Ver artistas serem difamados e museus fechados. Livreiros virarem foco de resistência onde deveria ser de descontração. Palavras são distorcidas, o desentendimento é proposital.
Somos chamados de vagabundos e parasitas por hordas de ignorantes que nem piscam ao acatar os discursos falsos de lideranças cujo comportamento em nada se diferencia do de psicopatas.
Ao mesmo tempo, sob o olhar de todos, líderes "religiosos" e "gurus" são descobertos como sendo estupradores e pedófilos.
Nunca houve em toda história da humanidade um único caso de assédio a crianças em um museu. Artistas fazem tudo à luz, às claras. Mas enquanto imbecis distorcem e retiram de contexto para depois atacar e violentar artistas e autores em geral, crianças estão sendo de fato estupradas dentro de salas fechadas, banheiros de líderes "espirituais", e quando tentam denunciar são mais atacadas ainda!
Tempos difíceis que só se tornaram padrão por conta da censura à arte e ao sufocamento da cultura, seja pelo viés da economia, tornando impossíveis quem quiser investir de o fazer tranquilamente, e aqui falo da Lei Rouanet – responsável por praticamente todas as mais importantes iniciativas culturais e educativas que aconteceram nos últimos anos – como pelo viés da mais pura e covarde violência de fato, com palhaços sendo presos por policiais ao fazer performance de crítica à truculência e corrupção do Estado, apedrejamento de funcionárias de museus, passeata com xingamentos a autoras internacionais de vem palestrar em instituições privadas.
O Brasil virou alvo dos olhares internacionais – antes era visto com admiração, sua imagem vendia nossa arte e produtos, seções de autores nacionais eram abertas e louvadas na Europa. Agora, somos vergonha. Nossos livros esquecidos, setores de estudos fechados. O nome Brasil passa de honrado ao um selo maldito que agora representa obscurantismo e horror.
Quando se criminaliza e mata a arte, não são os "vagabundos" ou "parasitas" dos autores os que mais perdem. Eles ficam só com 10% do lucro que geram na economia. Os outros 90% era pro país.

Tenho medo do que virá aí.

Imagem: história em quadrinhos "Colagem", feita para o querido amigo, professor e artista plástico, Luiz Fernando Perazzo. Que tirou a própria vida ainda antes desta loucura toda nos dominar. Imagino o que ele falaria destas dores e horrores.

sexta-feira, janeiro 11, 2019

Identidade Visual em Direitos Humanos

Este comecinho de ano veio bom com o pedido de criação de identidade visual (com diversos sub-produtos) para seminário de direitos humanos na educação organizado por amigas que são referência nacional na área. Professoras, antropólogas, historiadoras, juristas... conheço um time de me inspira e vem me orientando em estudos na área. Parte de minha formação como educadora vem através delas.
Por isso, quando sinto que posso retornar de alguma forma com meu trabalho, toda essa admiração que tenho por elas, fico feliz.

A primeira demanda foi por uma arte para aplicar em bolsa que levará o material do seminário.
Peguei o tema e comecei a pensá-lo dentro das diretrizes de comunicação específicas da área.
Há todo um histórico de como a simbologia desta área se desenvolveu, há figuras que são mais reconhecidas (e penso também nestas artes sendo apreciadas por pessoas de fora do país), há ainda a questão de reações emocionais a estas.

Dentro de um tema que abraçará pontos que despertam reações negativas, por estarmos justamente no enfrentamento às violações de direitos essenciais, é preciso pensar imagem que represente bem, mas sem deprimir aquele que busca força na união e informação.

Temos nossas vidas sob risco, nossa liberdade ameaçada, retrocessos que nos apontam desfechos sinistros, contrários a uma sociedade de verdadeira paz e justiça pra todos.

Assim, em cada tema que me saltava à mente, rabisquei as ideias inicialmente assustadoras e depois procurava qual seria sua "solução" para vencer o desafio.

Pamella Passos, que me orientou nos pedidos, me lançou a ideia de uma professora que sendo censurada seria socorrida por alunos. Ela perguntou se não seria óbvio demais, mas o caso é que a maioria das imagens que abordam desta forma o tema, o desfecho é desanimador! Mas no cenário montado por Pamella, os alunos resgatando, é o que "salva o dia", ao mostrar que a nova geração não está aceitando ser transformada em gado que segue sorridente pro abate.

O ato de censura, eu personifiquei. Colocar antropofórmico um conceito, é um recurso que é muito bacana, e é usado por comunicadores gráficos desde que o lápis fez amizade com o papiro. Fornece um entendimento geral da questão ao leitor da imagem.

Do outro lado, a professora e as crianças, sendo personagens específicos, são aqueles com as quais o público de identifica: conhecemos alguma professora como aquela, temos alunos como estas crianças!

Aqui a seguir está a arte em processo e algumas propostas paralelas que podem ser utilizadas em outras ocasiões ou até mesmo dentro da papelaria produzida pra este seminário.

Ainda sem o estudo de cor, que virá mais adiante.
Neste caso, utilizaremos 3 cores silkadas, o que fornece possibilidades muito bonitas.


Imagem selecionada, mas ainda em processo.
Repare que a composição está sem equilíbrio: todos os elementos escapam pela direita, acelerando a fuga pela diagonal de leitura. Corrigi isso na imagem que será usada mais adiante.


Uma proposta usando especificamente o símbolo que figura no logotipo dos Direitos Humanos utilizado internacionalmente, só que adaptado com lápis e caderno pra puxar pro tema da educação.


Mais sutil, criando uma ID própria para o seminário. Pode ser reproduzida em formatos mínimos como broches e selos. É bem genérico, mas utilizado junto ao título, não fica perdido em seu significado.


Mesma ideia que a anterior, mas buscando uma mensagem mais otimista. Aqui é como se a gente já estivesse na sequencia da resistência e já na construção.

Aqui a imagem escolhida já com a composição corrigida.


terça-feira, janeiro 01, 2019

A vingança dos analógicos: por que objetos de verdade ainda são importantes – de David Sax. Resenha crítica.


PPGTLCOM 2018/02 
A vingança dos analógicos: por que objetos de verdade ainda são importantes 
Autor: David Sax 
Aluna: Thais Quintella de Linhares
Disciplina: Laboratório de Redação Científica 



Em seu livro A vingança dos analógicos: por que objetos de verdade ainda são importantes , o  jornalista David Sax, traça uma avaliação atualizada sobre uma suposta derrocada dos suportes analógicos uma vez que os meios digitais assumiriam as funções de distribuição, produção e mesmo na educação de crianças e jovens, com maior eficiência e a um custo bem menor, tal como fora preconizado logo no início da popularização das tecnologias que possibilitam esses meios.
Acreditava-se que com a chegada de plataformas de compartilhamento de conteúdo, os analógicos seriam extintos. Assim, livros de papel, de cara produção e distribuição, desapareceriam dando lugar aos conteúdos exclusivamente digitais. 
Sax avalia capítulo a capítulo o destino de cada um dos principais suportes analógicos diante da ameaça de seu substituto digital, e a os conclui anunciando a forma como cada suporte se remodelou para atender a novos nichos de mercado para resgatar antigas demandas, que nunca cessaram de existir, do público consumidor.
O primeiro analógico abordado é o vinil e por extensão o mercado da música. Observamos como o colapso da distribuição baseado em discos de vinis força a uma remodelagem do sistema. Fato é que a indústria fonográfica não mais possuía o monopólio da produção e distribuição, uma vez que as novas plataformas e suportes tornaram viáveis não apenas a distribuição mas também a produção musical a baixo custo. Artistas não estavam mais submetidos às vontades dos produtores, abrindo às possibilidades criativas fora do mainstream ao acesso a novos públicos antes ignorados pela grande indústria que privilegiava apenas o que pudesse ser massificado, dados os altos custos que demandavam ser amortizados em grandes tiragens. Sim, o mercado dos discos em vinil sofreu uma queda significativa com a chegada de novos suportes digitais para as músicas. Os compact disks, o Pen-drive (carregados de play-lists), os downloads na Internet (e aqui queria acrescentar um destaque para o sistema de compartilhamento “torrent”, especialmente do Limewire – já extinto judicialmente), até mesmo os canais de música extra ou oficiais. Como Youtube, podcast, Spotfy, Vimeo. A indústria do vinil, porém, não desaparece. Ela se mantém com produção de baixas tiragens, se deslocando para nichos específicos. E começa depois a retornar, como sinônimo de qualidade e “cult” através, não mais dos antigos consumidores, mas de uma nova geração, a juventude em busca de suas características distintas.
A prensagem de CDs e vinis em tiragens especiais, canais de música online modificam o panorama, franqueando acesso praticamente ilimitado a quem embarcar nas redes online.
Até os anos 90 havia um modelo de comércio de música onde o ônus do investimento recaía sobre os produtores, logo, se por um lado isso afunilava o acesso do que fugisse ao já consagrado no mercado, por outro, democratizava em termos de que o artista não precisava se arriscar financeiramente. Num modelo, como o atual, em que os lucros incessantes caem no colo das plataformas que lucram monetizando os conteúdos, mas sem nada produzir neste mundo criativo, os artistas se percebem vulneráveis, e tendo de lidar com novas demandas de auto gerência, auto promoção e tentar despontar em meio ao ruído geral, o que sem ter capital inicial próprio é praticamente impossível dado a monetização contínua, indo contra mecanismos de democratização do uso da Internet, como o louvável Marco Zero da Internet implementado no Brasil.
O papel é o segundo suporte analógico reavaliado por Sax, o culto ao uso do Moleskine, o apelo do papel de celulose para uma manipulação mais orgânica da informação. Ainda é neste suporte que nos sentimos mais confortáveis e apresente características que, sendo ou não melhores do ponto de vista prático, se apresentam como mais familiares e agradáveis aos usuários. Este “pad” físico é ainda um dos mais caros o que acrescenta uma dimensão de valorização do conteúdo e autor. A saber: documentações importantes em documentos de Estado, são gravadas em outro suporte de mesma funcionalidade mas muito mais durável no ambiente natural: o pergaminho de pele animal. 
O caderno, Moleskine ou algum similar, ainda carrega em si o apelo da materialidade do suporte abrigar as ideias de forma perene: você pode pagar da mão de alguém, folhear, rasgar. Assim como não pode ser apagado por um pulso eletromagnético, tampouco há tecla de “recuperação" que traga de volta traços manchados ou apagados. 
No terceiro capítulo discute-se o filme de película usado em câmeras fotográficas e gravação de obras cinematográficas. E de fato, os processos digitais se apresentam como muito mais ágeis e menos custosos do que o processo quase culinário de revelação dos negativos. Ocorre porém, que em busca da perfeição, abre-se mão da relação mais íntima do foto-cine-autor com o resultado final da obra. O processo digital passa a cumprir então a função prática, libertando o analógico para a seara do artesanal. A foto e cinema em película não morre, renasce como forma de arte mais pessoal e manual. É possível acompanhar o experimentalismo resultante em inúmeras feiras gráficas – a foto enquanto design, cineclubes  e festivais independentes – com um público sempre havido pela dimensão da corrupção da manipulação humana. 
Um exemplo interessante e extremo, são as obras gráficas criadas por processo de pin-hole. O gestual de preparar o processo de captura de imagem, revelação e fixação responde à demanda bem humana de participação, de se “sentir parte da magia”. A simples captura pela lente de um celular e imediata postagem num portal de rede social, como o Instagram, por exemplo, pula etapas que ficam mal resolvidas dentro da dinâmica que corresponde às demandas de expressão e poder pessoal dos usuários.
Resgatar para uma dimensão puramente artística de obras experimentas os filmes analógicos, as Polaroides, montagens feitas de forma tradicional sem uso de recursos “facilitadores" digitais, coloca o fazer como objetivo maior do que o mostrar.
A seguir, no quarto capítulo o autor nos mostra como os jogos de tabuleiro, como outros meios analógicos, supostos descartados, retornam como meio ideal de um tipo de socialização que se mostrou inviável nas mídias digitais. O fator-humano, onde a mesa de jogo é a desculpa para sentar junto. E também de como surgiram os “gurus” dos jogos, que como sommeliers de vinho sabem identificar os jogos mais afins a determinado grupo de jogadores. Cafés e livrarias se unem no atraente modo de interação que usufrui tanto de antigos quanto novos e criativos jogos surgidos em levas a partir de sites de quickstarting. 
Tais café-livrarias onde podem acontecer partidas de jogos de tabuleiro, associados a eventos de impressos, e sempre contando com uma rede social 24/7 como seu espelho no ambiente virtual onde os grupos de jogadores e fãs se mantém em contato e marcam partidas, se espalharam pelos centros urbanos. 
Plataformas colaborativas – estruturas como a Wikipedia, por exemplo – compõe pontos de encontro no virtual onde os jogadores podem desenvolver enredos para partidas de Role Playing Games (RPG) e construção de personagens. Assim, os jogos no local marcam o clímax do rol de partidas, enquanto o virtual garante aprofundamentos e até mesmo participação remota de amigos em outras cidades.



Os impressos se apresentam no capítulo cinco, não mais como produto de consume de massa, mas de atendimento direto às demandas de seu público específico. Combinados com eventos onde os autores e ou editores conversam de forma direta com os fãs dos temas. Os impressos já saem das prensas on demand e com máximo proveito e valorização do design, direto para o endereço dos compradores (pelos crowdfundings) ou em eventos especialmente criados para apresentação de ousadas propostas de temas e acabamentos gráficos primorosos, que em larga escala intimidariam os editores tradicionais. A lógica do desperdício da banca de jornal é trocada pela da encomenda e identificação de temas de menor alcance mas público fidelizado. Quebrou-se a expectativa de que o “baixo” custo do digital tornaria essa plataforma por si só lucrativa para os tradicionais do jornalismo. 
O jornais de papel merecem uma consideração mais cuidadosa do que faremos aqui, e mesmo Sax deixa a desejar neste tema. Em todo caso, passada quase duas décadas da virada do século, vemos que a falência do modelo de distribuição em banca de jornal tem um alto custo na dissociação da noção do real mesmo nas notícias do dia a dia. Algoritmos programados para medir a reação do usuário na rede e a partir dela programar conteúdo e publicidade, sequestraram a construção da percepção de realidade do usuário.
“Free yourself to free us all”,  recomenda o especialista em rede, programador e “pai" de recursos que hoje utilizamos online, Jaron Lenier, nos alerta para tal manipulação decorrente de tais algoritmos. Uma super estrutura causada pela forma como a Internet primeiro foi montada: como comunicadora e não hospedeira de conteúdo. A hospedagem e distribuição de conteúdo ficou a cargo de empresas comerciais, onde nossa base de dados (e metadados) são vendidas ao uso da publicidade. 
O emocional humano dita essas reações e autores como Lenier acusam as redes que mantém esse formato (Facebook, Whatsapp, Youtube) de, ainda que não de forma maligna, manipularem as emoções dos usuários, gerando grupos reativos a partir de uma cultura de paranoias e fakenews, capazes de distorcer até mesmo processos democráticos como eleições e revoluções populares.
Assim, fugir da redes, deletar seu dados e metadados, e tirar “férias" do sistema, resgatando relações e formação de redes analógicas, seria, segundo Lenier, essencial para a saúde social e até mesmo a sobrevivência da espécie humana.
Plataformas não comerciais, tentam, ainda que de forma restrita, abrir caminhos livres dos algoritmos. São as mais conhecidas, todas feitas em código aberto, a Rise Up (email, grupos), Signal (mensagens), rede Onion e navegador Tor. Para pesquisa sem roubo d emetadados, existe o Duck,duck,GO!
Todos estes não estão submetidos às regras jurídicas às quais as empresas devem cumprir, como registro de dados de usuários e arquivamento de pelo menos 6 meses de mensagens e dados das conexões.
Hackers e ativistas da privacidade e liberdade na rede, promovem uma estratégia de encontros off-line, as Hackatons (maratonas hacker) onde os usuários podem trocar informações usando papel e contato face à face humana. Um retorno, ainda que por motivações mais dramáticas hoje, à cultura da socialização em círculos das antigas cidades pré-tecnológicas.
No capítulo seis que se vinga é a cidade. O circular dos afetos só é possível na ocupação direta dos espaços pelos corpos que não desejam apenas consumir objetos, mas também ideia, histórias e interações. Grandes marcas percebem que sem pontos de venda físicos, perdem oportunidades e não vêem alavancar lucros. Mais que isso, as lojas precisam atender às demandas humanas: a conversa entre amigos, a dica pessoal, o retorno e espaços de interação. Diferente dos algoritmos, pessoas apontam preferências e novos gostos. Quebram as “bolhas" , que “encaroçam"a rede. Essenciais para formação de público e visibilidade, pontos físicos criam oportunidades de negócios. 
Os livros, especialmente, precisam estar a vista, precisamos vê-los e nos sentir cercados. Pequena livrariam retornam após prender o fôlego sob as ondas da Amazon que por sua vez sufocou as redes físicas, pois a cultura do livro sempre irá começar com o toque das páginas, a textura das capas, o cheiro da tinta no impresso recente e o grupo de crianças circundando um contador de história que leia de forma carinhosa os textos de Lobato no chão acarpetado de uma livraria perfumada. Rui Campos, um dos criadores da rede Travessa de livrarias nos relata: Cultura, cultivo... a leitura precisa ser cultivada. Precisamos cultivar o desejo de conhecimento, o desejo de leitura. A grande ferramenta que possibilita a leitura é o livro, seja em que suporte for. Durante séculos, o impresso veio sendo cultuado, reverenciado, aprimorado, adornado com design espetacular, belas capas, papel leve e de tom confortável, orelhas inteligentes, rosto encantador. Um produto multissensorial. Seus autores tratados como estrelas, seus editores reverenciados. E seus locais de encontro com o leitor, as livrarias (físicas ou virtuais), locais frequentados e amados por toda gente. Verdadeiros pontos de encontro, praças, bibliotecas! Pois afinal, ali é possível manusear os livros, lê-los e até mesmo leva-los para casa por módicas quantias. Recentemente, surgiu o aparelho eletrônico para leitura. Trouxe uma série de alternativas e de facilidades para os leitores: capacidade de armazenamento, acesso rápido e remoto, entre outras. Bem-vindas novidades. Mas os donos do negócio tinham pressa. Uma pressa que se mostrou um tanto desconectada. Seria mais rápido destruir o que já havia. Varrer o concorrente do mapa. Acabar com o livro impresso.
Previa-se o fim das livrarias e seus livros para 2015, e as editoras partiriam antes, em 2014. Pois autores iriam se publicar sozinhos e livros seriam compartilhados em nuvens no ambiente virtual.
Mas o que ocorreu foi um rearranjo, com o livro eletrônico encontrando se nicho próprio, mas sem macular o gosto pelo livro como objeto multissensorial, da “ideia palpável”.
Um editor estrangeiro me confidenciou recentemente: “Concedi hoje uma entrevista para a Revista Wired que foi muito desagradável. Eles queriam saber sobre nossos planos para edições eletrônicas de livros de arte. Mas eu não tinha o que dizer pois abandonamos completamente esses projetos. Mas tive que dissimular e enrolar pois não poderia admiti-lo!”, relata Rui Campos, que prossegue: ”Lembro-me especificamente da capa de uma das nossas principais revistas semanais onde Paulo Coelho, nosso maior best-seller, uma verdadeira lenda do mercado livreiro mundial, segurava um tablete com a seguinte manchete: “O último livro que você vai comprar!”



Detroit morreu sob a dinâmica neoliberal, onde a mão de obra foi transferida para off-chores, e produto ganham mercado por critérios de preço. O capítulo que trata da vingança do trabalho, nos conta como a cidade fantasma prenuncia um futuro desagradável e desumanizado. A automação das linhas de produção afunilam as capacidades criativas que poderia advir diretamente das mãos dos trabalhadores comuns, desqualificando a mente trabalhadora. Mas a ousadia de um milionário que decide apostar na manufatura de qualidade, aponta para a geração de empregos para um mercado que demanda apego e exclusividade mais que preço e massificação. A concentração de renda e bens pelo neoliberalismo, afastando acda vez o mais o trabalhador comum do benefícios de sua produção tem limites. Na base, o trabalhador ainda é a peça chave de uma economia humanamente saudável, e é preciso requalificar as classes na base de produção.
No oitavo trecho, o autor mostra como as tentativas de “digitalizar”o ensino reverteram em resultados desastrosos e da vingança da escola. De como a instrumentalização de um processo que é essencialmente humano, promovendo o afastamento do professor do protagonismo foi um erro promovido por tecnocratas oportunistas de olho nas receitas destinadas às escolas. Que a mídia digital não é a ideal para o aprendizado, nem mesmo se considerada por crianças já nascidas com uma tela de celular diante do rosto. Investir na infraestrutura e capacitação do professor, é e sempre será o ponto de coalizão para uma escola forte e significativa.
No capítulo que fecha o livro, aprendemos como mesmo as empresas que lidam no digital, planejam analogamente as dinâmicas de reunião, planejamento, recarga criativa, com espaços de convivência e troca presencial, possibilitando assim a total interação. Um aplicativo que jamais sairá de moda: vida. O que nos leva enfim ao epílogo, junto com os campistas do Walden, camping de verão, apreciamos como é a vivência sem telefones celulares, wi-fi, ou outras distrações que interfiram na interatividade natural: pessoas e natureza selvagem. O contraste aqui nos convida a reavaliar nosso uso das tecnologias. Elas não valem por si só e não deveriam prejudicar as dinâmicas essenciais da convivência humana, mas antes, ajuda-las dentro de seus limites enquanto ambiente digital.
A desintegração da rede social, a derrocada das agências efetivas de ação coletiva, é recebida muitas vezes com a grande ansiedade e lamentada como "efeito colateral" não previsto da nova leveza e fluidez do poder cada vez mais móvel, escorregadio, evasivo e fugitivo. Mas a desintegração social é tanto uma condição quanto um resultado da nova técnica do poder, que tem como ferramentas principais o desengajamento e a arte da fuga. Para que o poder tenha liberdade de fluir, o mundo deve estar livre de cercas, barreiras, fronteira fortificadas e barricadas. Qualquer rede densa de laços sociais, e em particular uma que esteja territorialmente enraizada, é um obstáculo a ser eliminado. Os poderes globais se inclinam a desmantelar tais redes em proveito de sua contínua e crescente fluidez, principal fonte de sua força e garantia de sua invencibilidade. E são esse derrocar, a fragilidade, o quebradiço, o imediato dos laços e redes humanos que permitem que esses poderes operem.(BAUMAN, 2000)
Resgatados do uso das tecnologias como forma de ruptura e fragilização, recuperamos as redes puras de atores que nos alienam ao invés de fortalecer na união.
Free yourself to free us all.


Referências Bibliográficas

SAX, David. A Vingança dos Analógicos: por que objetos de verdade ainda são importantes. 1ª edição. Rio de Janeiro. Selo Anfiteatro/Editora Rocco, 2017.

BAUMAN, Zygmundt.  Modernidade Líquida – Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

CAMPOS, Rui. O fim do Livro. Artigo do portal Publishnews de 19 / 07 / 2017.
Acesso em 31/12/2018 no https://www.publishnews.com.br/materias/2017/07/19/o-fim-do-fim-do-livro

LANIER, Jaron. “Ten arguments for deleting your social media accounts right now”. Apresentação de livro no canal de Youtube The Artificial Intelligence Channel. Publicado em 4 de ago de 2018. Visualizado em 1 de Janeiro de 2019. Hospedado em: https://www.youtube.com/watch?v=BCTlcj5vImk