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sexta-feira, maio 24, 2019
quinta-feira, abril 11, 2019
PRIVILÉGIOS SÃO ANTOLHOS
RESPOSTA AO COLEGA CHARGISTA QUE RECLAMOU DE ATENTADO À "LIBERDADE DE EXPRESSÃO" NA CONDENAÇÃO DO DITO "HUMORISTA", ele disse ser um "precedente perigoso" que seria usado para impedir que gozasse do presidente.
Mulheres são vítimas de violência estrutural, homens brancos em cargo de presidência não. Há séculos convivemos com um "precedente perigoso" de ser ok nos massacrar em piadas, assédios, surras e culpabilização até mesmo quando somos estupradas e mortas. Sacou a diferença?
Se um humorista fizesse uma charge de conotação sexual tendo vc (macho, branco, heterossexual) como alvo, é bem diferente o grau de agressão do que se fosse com sua filha. Porque em nossa sociedade há uma conotação de usar sexo como agressão contra as mulheres que não existe contra os homens, e quando há, é justamente os "rebaixando" à condição de "mulherzinha".
Ver um homem branco, hetero, ser punido por seu machismo virulento é um alívio para mim, espero que seja didático a outros que ganham a vida atiçando ódio a vulneráveis como ele faz.
(PS. O chargista em questão ganhou fama e dinheiro com humor machista e com uma liberdade em explorar pornografia que nós mulheres JAMAIS tivemos. Privilégios são antolhos...)
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segunda-feira, março 04, 2019
Aquarela para Marielle Franco
Traço à lápis.
Estudei todas as imagens que pude encontrar da Marielle, ainda que a conhecesse pessoalmente, é importante tentar capturar a essência da pessoa em sua forma visual. Esta foto que vocês podem ver aí na tela é da fotógrafa Thais Alvarenga – do Fotografias Negras.
Usando um papel telado próprio pra aquarela, mergulho só um pouco em água (quanto maior a gramatura, a grossura, do papel, mais tempo fica na água pra absorver e soltar as fibras).
Um papel fino pode apenas molhar e retirar em menos de um minuto.
Com a fita d'água prende sobre uma madeira lisa e limpa.
Essa fita é aquela que se usa pra prender obras de arte em molduras. Não é a crepe e nem a fita marrom – 99% das papelarias não irão entender seu pedido. Essa fita ela só se torna adesiva depois que a face brilhante dela é molhada (use esponja macia ou paninho, ou mesmo espalhando com dedo a água). Você passa água só do lado liso, e ele funciona como os antigos selos ou envelopes do correio, que precisava lamber pra ficar adesivo, quem pegou essa época?
Qualquer outra fita comum, destas que já são adesivas, não servem. Pois enquanto que a fita d'água se torna mais forte e firme com a umidade, a fita comum se enfraquece e deforma.
Algumas pessoas, ao prender a arte no papel, ainda usam taxinhas nos cantos, sobre a fita mesmo, pra fixar melhor.
Isso tudo é pra evitar que enquanto a papel vai secando ele fique reto, sem se deformar. Experimente molhar um papel qualquer e deixar secar sem firmar: ele ficará todo enrugado.
A aquarela, sendo a base d'água, enrugará os papeis que não forem relaxados na água, presos, e postos pra secar bem esticados.
Também se prender o papel sem molhar antes pra relaxar as fibras, elas começarão a soltar quando a aquarela encharcar o papel, e também ficará deformado.
Apenas um papel muito grosso e encorpado, e com pouco encharcamento irá resistir ainda à deformação.
Tendo as linhas do desenho a lápis como guia em começo a pintar. Estou usando aquarela de tubo e pastilha.
Terminada as cores, eu vou esperar secar bem antes de fazer o traço com tinta china (nanquim, tinta preta feita com pó de carvão e estabilizantes).
Uso um pincel fino, de qualidade, pra traçar as linhas. Se a aquarela ainda estiver úmida, vai borrar. Por isso esperei secar bem. Se o pincel não for bem macio, e com ponta fina, vai acabar riscando mal o papel e tirando a delicadeza do traço. Pra quem nunca fez traço com pincel, e se acostumou a usar canetinha, é normal errar um pouco, mas com o tempo a mão vai ficando super firme mesmo se poder apoiar sobre o papel.
Terminei. O papel e as tintas estão super secos. Até a fita d'água secou e já começa a soltar um pouco.
Eu uso uma régua de aço e estilete pra recortar ao redor da arte e soltar da madeira. Depois arranca o que sobrou preso (as fitas) e limpa com água a madeira, deixa secar pra usar de novo quando precisar. Tenho aqui em casas algumas madeiras em tamanhos diferentes onde estico os papéis.
Escaneei o desenho, aplique um fundo com uma foto que fiz na favela da Maré, e apliquei digitalmente no vestido uma estampa de desenhei (usando canetinha) com a imagem de crianças e flores, algo que sempre me remete à atuação de Marielle, pela vida das crianças e a esperança de cidadania verdadeira pra todos nós. Primeiro eu reduzi muito a saturação (dá pra fazer isso no computador, em qualquer programa! O Gimp, por exemplo, é grátis, livre e resolver demandas mesmo profissionais). Mas achei muito esmaecido, e optei então por aumentar a saturação das cores e ficou assim:
Preparei o arquivo para um formato de saída em impressão de 42cm x 29,7cm (A3), com resolução de 300dpi e modo de cor RGB (que é o usado em tela de TV, computadores e impressões em pequenas tiragens que usam plots e impressoras de rua, bureau, xerox...) – isso porque só será impressa uma única prancha, para a exposição em Campinas organizada pela Thaís Bicudo (repararam que são 3 "thaíses" aqui? Linhares, Alvarenga e Bicudo?), que começa dia 9 de março de 2019 - comemorando o Dia Internacional da Luta das Mulheres (8 de março), em "Elas, as mulheres que mudaram o mundo".
Se fosse pra imprimir uma tiragem grande (1.000 ou mais...), o ideal é usa gráfica que imprime com processo de 4 cores (que vem em latas de tinta de impressão), o CIANO (tipo de azul puro), YELLOW (amarelo puro), o magenta (tipo de rosa super forte) e o BLACK (preto puro): é o modo de cor CYMK.
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sexta-feira, janeiro 11, 2019
Identidade Visual em Direitos Humanos
Este comecinho de ano veio bom com o pedido de criação de identidade visual (com diversos sub-produtos) para seminário de direitos humanos na educação organizado por amigas que são referência nacional na área. Professoras, antropólogas, historiadoras, juristas... conheço um time de me inspira e vem me orientando em estudos na área. Parte de minha formação como educadora vem através delas.
Por isso, quando sinto que posso retornar de alguma forma com meu trabalho, toda essa admiração que tenho por elas, fico feliz.
A primeira demanda foi por uma arte para aplicar em bolsa que levará o material do seminário.
Peguei o tema e comecei a pensá-lo dentro das diretrizes de comunicação específicas da área.
Há todo um histórico de como a simbologia desta área se desenvolveu, há figuras que são mais reconhecidas (e penso também nestas artes sendo apreciadas por pessoas de fora do país), há ainda a questão de reações emocionais a estas.
Dentro de um tema que abraçará pontos que despertam reações negativas, por estarmos justamente no enfrentamento às violações de direitos essenciais, é preciso pensar imagem que represente bem, mas sem deprimir aquele que busca força na união e informação.
Temos nossas vidas sob risco, nossa liberdade ameaçada, retrocessos que nos apontam desfechos sinistros, contrários a uma sociedade de verdadeira paz e justiça pra todos.
Assim, em cada tema que me saltava à mente, rabisquei as ideias inicialmente assustadoras e depois procurava qual seria sua "solução" para vencer o desafio.
Pamella Passos, que me orientou nos pedidos, me lançou a ideia de uma professora que sendo censurada seria socorrida por alunos. Ela perguntou se não seria óbvio demais, mas o caso é que a maioria das imagens que abordam desta forma o tema, o desfecho é desanimador! Mas no cenário montado por Pamella, os alunos resgatando, é o que "salva o dia", ao mostrar que a nova geração não está aceitando ser transformada em gado que segue sorridente pro abate.
O ato de censura, eu personifiquei. Colocar antropofórmico um conceito, é um recurso que é muito bacana, e é usado por comunicadores gráficos desde que o lápis fez amizade com o papiro. Fornece um entendimento geral da questão ao leitor da imagem.
Do outro lado, a professora e as crianças, sendo personagens específicos, são aqueles com as quais o público de identifica: conhecemos alguma professora como aquela, temos alunos como estas crianças!
Aqui a seguir está a arte em processo e algumas propostas paralelas que podem ser utilizadas em outras ocasiões ou até mesmo dentro da papelaria produzida pra este seminário.
Ainda sem o estudo de cor, que virá mais adiante.
Neste caso, utilizaremos 3 cores silkadas, o que fornece possibilidades muito bonitas.
Por isso, quando sinto que posso retornar de alguma forma com meu trabalho, toda essa admiração que tenho por elas, fico feliz.
A primeira demanda foi por uma arte para aplicar em bolsa que levará o material do seminário.
Peguei o tema e comecei a pensá-lo dentro das diretrizes de comunicação específicas da área.
Há todo um histórico de como a simbologia desta área se desenvolveu, há figuras que são mais reconhecidas (e penso também nestas artes sendo apreciadas por pessoas de fora do país), há ainda a questão de reações emocionais a estas.
Dentro de um tema que abraçará pontos que despertam reações negativas, por estarmos justamente no enfrentamento às violações de direitos essenciais, é preciso pensar imagem que represente bem, mas sem deprimir aquele que busca força na união e informação.
Temos nossas vidas sob risco, nossa liberdade ameaçada, retrocessos que nos apontam desfechos sinistros, contrários a uma sociedade de verdadeira paz e justiça pra todos.
Assim, em cada tema que me saltava à mente, rabisquei as ideias inicialmente assustadoras e depois procurava qual seria sua "solução" para vencer o desafio.
Pamella Passos, que me orientou nos pedidos, me lançou a ideia de uma professora que sendo censurada seria socorrida por alunos. Ela perguntou se não seria óbvio demais, mas o caso é que a maioria das imagens que abordam desta forma o tema, o desfecho é desanimador! Mas no cenário montado por Pamella, os alunos resgatando, é o que "salva o dia", ao mostrar que a nova geração não está aceitando ser transformada em gado que segue sorridente pro abate.
O ato de censura, eu personifiquei. Colocar antropofórmico um conceito, é um recurso que é muito bacana, e é usado por comunicadores gráficos desde que o lápis fez amizade com o papiro. Fornece um entendimento geral da questão ao leitor da imagem.
Do outro lado, a professora e as crianças, sendo personagens específicos, são aqueles com as quais o público de identifica: conhecemos alguma professora como aquela, temos alunos como estas crianças!
Aqui a seguir está a arte em processo e algumas propostas paralelas que podem ser utilizadas em outras ocasiões ou até mesmo dentro da papelaria produzida pra este seminário.
Ainda sem o estudo de cor, que virá mais adiante.
Neste caso, utilizaremos 3 cores silkadas, o que fornece possibilidades muito bonitas.
Imagem selecionada, mas ainda em processo.
Repare que a composição está sem equilíbrio: todos os elementos escapam pela direita, acelerando a fuga pela diagonal de leitura. Corrigi isso na imagem que será usada mais adiante.
Uma proposta usando especificamente o símbolo que figura no logotipo dos Direitos Humanos utilizado internacionalmente, só que adaptado com lápis e caderno pra puxar pro tema da educação.
Mais sutil, criando uma ID própria para o seminário. Pode ser reproduzida em formatos mínimos como broches e selos. É bem genérico, mas utilizado junto ao título, não fica perdido em seu significado.
Mesma ideia que a anterior, mas buscando uma mensagem mais otimista. Aqui é como se a gente já estivesse na sequencia da resistência e já na construção.
Aqui a imagem escolhida já com a composição corrigida.
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segunda-feira, dezembro 05, 2016
O Direito à Moradia Digna e Segura
Projeto novo para coleção de livros onde vários autores falarão de Direitos Humanos. Escolhi o Direito à Moradia.
Acima a página título.
Usei canetinha Bic preta em papel comum 75g.
Melhor coisa do mundo usar uma canetinha baratinha, fácil de achar em qualquer banca de jornal e que dá um lindo efeito de cinza hachurado.
Ainda não decidi se mantenho tudo preto e branco ou colorizo.
Talvez apenas algumas partes, dependendo do andamento da história, porque é bacana demais salvar o efeito original dos cinzas da Bic.
A seguir alguns estudos de quando ainda não havia decidido o traço.
Junto no projeto que foi ideia do Fernando Arosa, tem um time muito legal de autoras e autores de literatura.
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quarta-feira, setembro 21, 2016
Convite ao Encontro – sobre resgatar a narrativa de si mesmo.
É de Joel, professor e amigo, que solicito ajuda para começar esse texto que, como verá, o levará até o ponto onde possa aceitar um convite, que sei, lhe será de grande agrado.
Ensinou-me o mestre, em sua fala gentil, sobre como construímos no Brasil determinado tipo de narrativa, proposta a partir de interesses de determinado grupo, e de como isso calou por muito tempo as vozes, a diversidade de vozes, que compõe as narrativas brasileiras.
A produção cultural, da dita "alta cultura" tem lugar e dono. Os "escritores" brasileiros são em sua maioria homens brancos, de classe média, moradores de áreas "nobres" de grandes centros urbanos. É assim nas redações do telejornais, nos editoriais das revistas mais ricas, nos palcos do teatro, telas de cinema, nos tribunais, cartuns, quadrinhos e, enfim, na literatura, desde que os primeiros folhetins nos chegaram trazidos d'além mar para deleite daqueles que podiam ler.
E como registrar suas próprias histórias, narrativas que conduzem a vida, se não se sabe ler?
É na literatura entretanto, que a figura do pobre, invisibilizada na política e na economia, ganha protagonismo. O pobre é ali figurado, ganha contornos, cores, comportamentos.
Mas, o que é o "pobre" afinal?
É o iletrado? O marginalizado dos meios de produção? Qual a narrativa que construiu em nossas cabeças o que é "pobre"? Pobre, nas narrativas oficiais, é aqueles que deseja mas não pode, é fator de desestruturação da sociedade em direta oposição à rica elite estruturadora. Por definição, os pobres são a classe perigosa.
Assim, coube aos escritores dos folhetins e seus herdeiros, reproduzir modelos sobre o que é o pobre com ideias convenientes à dominação social. Cindindo também nas letras a sociedade em classes que se opõem, uma oprimindo, outra oprimida.
Darcy Ribeiro definiu que há de fato dois tipos de intelectuais: o contente e o irado.
O primeiro, gosta das coisas como estão. Aliena-se da dor daqueles cujo desejo é suprimido, aceita os privilégios de poucos, ganha sua vida assim. Não irá chiar a não ser que lhe doa nos próprios privilégios de porta voz do status quo.
O segundo, lamenta o sufocar das demandas do povo, se sensibiliza com as dores e sofreres de seus irmãos. Muitas vezes se engajará, colocando à risco a própria paz de espírito, quando não a saúde, para fazer sua parte, naquilo que crê, ser o caminho para uma sociedade mais generosa e justa.
Pode ser frustrante contrariar seu papel de propagador da ideologia dominante, mas também pode ser purificador.
Não são muitos, ainda hoje, intelectuais que fujam ao seu papel de extratificadores de classes. Que rompam com o paternalismo intelectual de uma classe sobre outra. Mas de quando em vez, sairá do mundo dos pobres, um porta voz que coloca por terra as barreiras das elites. Foi assim com Patativa do Assaré. Não se dobrou às normas "de cima", pelo contrário, fez as suas e as impôs pela força de suas narrativas.
Daí ficamos a definir o que é um "intelectual".
Intelectual é aquele que, sendo de determinado grupo social, fala de seu grupo para a sociedade. Ao mesmo tempo, ele estabelece para seu grupo determinadas normas de conduta, tendo também uma função pedagógica: representa externamente seu grupo, e educa internamente o mesmo.
A este, Gramsky chamou de "intelectual orgânico".
Uma das dificuldades para a abertura de espaço para os intelectuais do povo, é que até bem pouco tempo, os meios de produção e divulgação de arte eram caros, detidos nas mãos de poucos. Assim, a elite dona dos jornais, gravadoras, escolas, reproduzia para o consumo geral a sua própria narrativa hegemônica.
Os intelectuais que emergem dos círculos populares, agora tem melhor acesso aos meios. Seja por internet, ou pelas políticas públicas do último periodo político, nas rádios comunitárias, agora vemos e ouvimos um proliferar de vozes, centenas milhares, que na verdade sempre estiveram por lá.
Nunca em toda a cidade do Rio de Janeiro se ouviu tantos saraus, rodas de samba, oficinas literárias, feiras de trocas de zines. Da rua à rede, e desta de volta a rua, o que vemos é uma ocupação das vias, por parte daqueles que tem muito a expressar e quebrar na narrativa hegemônica.
Quando nos prendemos a uma só história, destruímos a possibilidade de conhecimento do outro. Caímos na armadilha do "pobre" do folhetim, do "outro" onde não nos reconhecemos, simplesmente porque nunca tivemos acesso a nenhuma outra narrativa ao seu respeito a não ser aquela única, alienante, que nos torna opositores entre nós.
Saber das demais histórias de alguém, é trazê-lo para perto de si.
Não é por acaso que uma das formas de dominar uma população é impedindo o seu acesso a outras narrativas que não a imposta pela classe dominante.
Assim todos somos postos a ver a mesma novela, o mesmo telejornal, o mesmo ensino de banco de escola do pensamento único, sem o qual não se lançaria povos em guerras, ou se faria possível matar a um irmão.
A violência se alimenta da alienação, em todos os seus níveis. Desumanizar, negar direitos iguais, é a forma como se prepara o campo para violar seu semelhante.
Foi seguido a um periodo traumático de extrema alienação de valores humanitários, que se produziu a Declaração Universal dos Direitos Humanos (10 de dezembro de 1948). Nela se incluem em seus trinta artigos, aqueles que protegem expressamente o direito à diversidade de narrativas, seja aos autores, propagadores ou fruidores. A saber:
Artigo 7
Todos são iguais perante a lei e tem direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos tem direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.
Não se pode diminuir uma pessoa, através de discursos preconceituosos, negando sua condição humana. Entretanto, vemos em discursos políticos, religiosos e até mesmo em projetos educativos, palavras ou propostas que violam esse direito essencial.
Artigo 19
Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras.
Enquanto não tivermos acesso amplo e democrático dos meios de comunicação, este direito irá permanecer incompleto. Com a Internet avançou-se, mas ainda não chegamos a um ponto justo. Ataques ao Marco Zero da Internet, monopólios midiáticos, a pauperização de aparelhos públicos culturais e educacionais são no momento as maiores faltas.
Artigo 26
I) Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnica profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
II) A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
III) Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.
I) Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnica profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
II) A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
III) Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.
Entretanto, ainda não vimos no país um real esforço pela democratização do ensino. Seguimos enfrentando políticas de sucateamento, com grande interferência de grupos privados que visam tornar o direito humano à educação em mercadoria para lucro de poucos em detrimento da necessidade de muitos.
Artigo 27
I) Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do progresso científico e de fruir de seus benefícios.
II) Toda pessoa tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica, literária ou artística da qual seja autor.
Aqui falamos de direitos autorais, estes que devem atender tanto ao público quanto ao criador da obra artística. Quando interagimos com as artes, é preciso ter em mente suas funções sociais. Elas devem se fazer acessível, têm valor de registro de sua época, é direito do público saber a quem creditar a obra e é direito de quem a cria ter seus valores morais e materiais salvaguardados.
Repare que nenhum destes parágrafos especifica o que é cultura, ou o que é melhor ou pior em termos de artes e manifestações culturais.
O que temos como "cultura" é uma construção de determinada época, região, e tem intenção ideológica nela. Ou seja: a cultura não é um conceito absoluto. Aliás, devemos nos acostumar a questionar sempre o que nos é dado como dogma, como determinado, como ideia única, como única história.
O que temos como "cultura" é uma construção de determinada época, região, e tem intenção ideológica nela. Ou seja: a cultura não é um conceito absoluto. Aliás, devemos nos acostumar a questionar sempre o que nos é dado como dogma, como determinado, como ideia única, como única história.
É preciso aprender a desconstruir narrativas que nos chegam cristalizadas, para se aproximar do que há de original em determinado tema.
Nos definimos em oposição ao outro. Assim a mulher se define em oposição ao homem – que hegemoniza a cultura a partir de seu ponto de vista. E o negro se define em face ao branco, que da mesma forma dominou as narrativas. O negro é contado à partir do centro branco, masculino, heterossexual e rico.
De sua ilha de privilégio, não cabe ao homem, branco, hetero, rico, romper com as estruturas opressoras de narrativas. Ele está cego em sua posição, sob holofotes que o perseguem desde o dia em que nasceu, quiçá até antes. Caberá àquelas e aqueles que tiveram seu protagonismo suprimido, libertar o mundo da narrativa hegemônica, do discurso alienante. Simplesmente porque, apenas elas e eles, tem o que é necessário: que são suas próprias narrativas. São as histórias das periferias, de quem lutou pelo direito de viver, sobreviver, da poesia das quebradas, da música marginal, dos ranchos, dos toques dos atabaques, das vielas, das celas, dos cárceres, dos abrigos, dos hospícios, dos campos, dos cantos dos amordaçados de um país onde cada cabeça pode propor um novo universo.
Nós, humanos, somos construídos pelas narrativas das quais dispomos. Com elas nos definimos. A religião é uma narrativa, a forma como lidamos com nossos familiares também, nossas crenças no que é bom de se comer, falar, são histórias que "colaram" em nós. Sociedades são construídas através dos pontos em comum das narrativas de seus membros. Mesmo a história oficial de um povo não é mais do que uma narrativa única, incompleta, alienante do que foi o real daquelas pessoas que nos precederam. Não à toa, Joel Rufino escreveu seus tomos onde resgatou as narrativas de nossa história do Brasil contada por classes nunca antes ouvidas, e não à toa, teve sua obra destruída e foi cassado pelo governo militar da Ditadura, que mais que tudo, só pode dominar suprimindo violentamente todas as narrativas que não a sua.
E de onde vêm essas narrativas?
Vem de nossos pais, da avó que contava a história antes de dormir, dos "causos" contados à mesa de jantar ou na roda de viola, da fofoca das vizinhas, da novela das oito, do âncora engravatado do jornal nacional, dos filmes blockbusters estrangeiros monopolizando as telas dos cinemas…
Elas nos definem, e não é fácil resistir à elas, especialmente quando se é uma criança. Narrativas nos conformam ou revoltam, dependendo de quem a conta. Podem domar os desejos e manter um país inteiro sujeito à condições péssimas para seu povo, porque fizeram-no crer de que tem de ser assim, mas também podem despertar consciências e uma crítica lúcida sobre o porquê do estados das coisas que nos oprimem.
Elas nos definem, e não é fácil resistir à elas, especialmente quando se é uma criança. Narrativas nos conformam ou revoltam, dependendo de quem a conta. Podem domar os desejos e manter um país inteiro sujeito à condições péssimas para seu povo, porque fizeram-no crer de que tem de ser assim, mas também podem despertar consciências e uma crítica lúcida sobre o porquê do estados das coisas que nos oprimem.
Uma das narrativas mais perigosas que podem nos imprimir é a de que somos inimigos. Pense em alguém, qualquer pessoa, que de alguma forma lhe inspira raiva, ou repulsa. Pense em como se formou esse sentimento em você. Foi alguém que lhe ensinou ou algo que leu? Foi esta pessoa que lhe fez ou falou algo rude?
De qualquer forma, o quanto sabe a respeito desta pessoa que justifique a encarar como um inimigo e não uma igual? Em outras palavras, quais foram as narrativas sobre ela que teve acesso?
De qualquer forma, o quanto sabe a respeito desta pessoa que justifique a encarar como um inimigo e não uma igual? Em outras palavras, quais foram as narrativas sobre ela que teve acesso?
Alienar-se do outro é negar suas outras narrativas. Conhecê-las é se aproximar, humanizar. Mesmo o pior dos inimigos, tem em si um conto de afeto, de ternura. Compreender é abrir possibilidade de se conviver, de respeito mútuo.
Portanto, se pretendemos uma sociedade pacífica, justa e harmoniosa, é urgente que se inicie tornando possível que todos possam contar suas próprias histórias, e o que é mais importante de tudo: serem ouvidos.
Meu convite portanto é esse: vamos nos organizar de formas a que isso aconteça aqui entre nós?
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Novo DEGASE
quarta-feira, setembro 14, 2016
Convite ao Encontro – artigo para publicação do Novo DEGASE
Convite ao Encontro
Joel Rufino dos Santos, foi para nós um exemplo de intelectual plenamente inserido no ritmo de seu tempo, fosse nos temerosos anos da Ditadura, fosse na nossa pueril Democracia, tantas vezes abortada antes de atingir seu pleno desenvolvimento. Independente disso, seu legado permanece e avança para além do presente. Há de se estudar e dialogar com seus livros, literatura, ensinamentos.
É de Joel, professor e amigo, que solicito ajuda para começar esse texto que, como verá, o levará até o ponto onde possa aceitar um convite, que sei, lhe será de grande agrado.
Ensinou-me o mestre, em sua fala gentil, sobre como construímos no Brasil determinado tipo de narrativa, proposta a partir de interesses de determinado grupo, e de como isso calou por muito tempo as vozes, a diversidade de vozes, que compõe as narrativas brasileiras.
A produção cultural, da dita "alta cultura" tem lugar e dono. Os "escritores" brasileiros são em sua maioria homens brancos, de classe média, moradores de áreas "nobres" de grandes centros urbanos. É assim nas redações do telejornais, nos editoriais das revistas mais ricas, nos palcos do teatro, telas de cinema, nos tribunais, cartuns, quadrinhos e, enfim, na literatura, desde que os primeiros folhetins nos chegaram trazidos d'além mar para deleite daqueles que podiam ler.
E como registrar suas próprias histórias, narrativas que conduzem a vida, se não se sabe ler?
É na literatura entretanto, que a figura do pobre, invisibilizada na política e na economia, ganha protagonismo. O pobre é ali figurado, ganha contornos, cores, comportamentos.
Mas, o que é o "pobre" afinal?
É o iletrado? O marginalizado dos meios de produção? Qual a narrativa que construiu em nossas cabeças o que é "pobre"? Pobre, nas narrativas oficiais, é aqueles que deseja mas não pode, é fator de desestruturação da sociedade em direta oposição à rica elite estruturadora. Por definição, os pobres são a classe perigosa.
Assim, coube aos escritores dos folhetins e seus herdeiros, reproduzir modelos sobre o que é o pobre com ideias convenientes à dominação social. Cindindo também nas letras a sociedade em classes que se opõem, uma oprimindo, outra oprimida.
Darcy Ribeiro definiu que há de fato dois tipos de intelectuais: o contente e o irado.
O primeiro, gosta das coisas como estão. Aliena-se da dor daqueles cujo desejo é suprimido, aceita os privilégios de poucos, ganha sua vida assim. Não irá chiar a não ser que lhe doa nos próprios privilégios de porta voz do status quo.
O segundo, lamenta o sufocar das demandas do povo, se sensibiliza com as dores e sofreres de seus irmãos. Muitas vezes se engajará, colocando à risco a própria paz de espírito, quando não a saúde, para fazer sua parte, naquilo que crê, ser o caminho para uma sociedade mais generosa e justa.
Pode ser frustrante contrariar seu papel de propagador da ideologia dominante, mas também pode ser purificante.
Não são muitos, ainda hoje, intelectuais que fujam ao seu papel de extratificadores de classes. Que rompam com o paternalismo intelectual de uma classe sobre outra. Mas de quando em vez, sairá do mundo dos pobres, um porta voz que coloca por terra as barreiras das elites. Foi assim com Patativa do Assaré. Não se dobrou às normas "de cima", pelo contrário, fez as suas e as impôs pela força de suas narrativas.
Daí ficamos a definir o que é um "intelectual".
Intelectual é aquele que, sendo de determinado grupo social, fala de seu grupo para a sociedade. Ao mesmo tempo, ele estabelece para seu grupo determinadas normas de conduta, tendo também uma função pedagógica: representa externamente seu grupo, e educa internamente o mesmo.
A este, Gramsky chamou de "intelectual orgânico".
Uma das dificuldades para a abertura de espaço para os intelectuais do povo, é que até bem pouco tempo, os meios de produção e divulgação de arte eram caros, detidos nas mãos de poucos. Assim, a elite dona dos jornais, gravadoras, escolas, reproduzia para o consumo geral a sua própria narrativa hegemônica.
Os intelectuais que emergem dos círculos populares, agora tem melhor acesso aos meios. Seja por internet, ou pelas políticas públicas do último periodo político, nas rádios comunitárias, agora vemos e ouvimos um proliferar de vozes, centenas milhares, que na verdade sempre estiveram por lá.
Nunca em toda a cidade do Rio de Janeiro se ouviu tantos saraus, rodas de samba, oficinas literárias, feiras de trocas de zines. Da rua à rede, e desta de volta a rua, o que vemos é uma ocupação das vias, por parte daqueles que tem muito a expressar e quebrar na narrativa hegemônica.
Quando nos prendemos a uma só história, destruímos a possibilidade de conhecimento do outro. Caímos na armadilha do "pobre" do folhetim, do "outro" onde não nos reconhecemos, simplesmente por que nunca tivemos acesso a nenhuma outra narrativa ao seu respeito a não ser aquela única, alienante, que nos torna opositores entre nós.
Saber das demais histórias de alguém, é traze-lo para perto de si.
Não é por acaso que uma das formas de dominar uma população é impedindo o seu acesso a outras narrativas que não a imposta pela classe dominante.
Assim todos somos postos a ver a mesma novela, o mesmo telejornal, o mesmo ensino de banco de escola do pensamento único, sem o qual não se lançaria povos em guerras, ou se faria possível matar a um irmão.
A violência se alimenta da alienação, em todos os seus níveis. Desumanizar, negar direitos iguais, é a forma como se prepara o campo para violar seu semelhante.
Foi seguido a um periodo de extrema alienação de valores humanitários, que se produziu a Declaração Universal dos Direitos Humanos (10 de dezembro de 1948). Nela se incluem entre seus trinta artigos, aqueles que protegem expressamente o direito à diversidade de narrativas, seja como autores, propagadores ou fruidores. A saber:
Artigo 7
Todos são iguais perante a lei e tem direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos tem direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.
Não se pode diminuir uma pessoa, através de discursos preconceituosos, negando sua condição humana. Entretanto, vemos em discursos políticos, religiosos e até mesmo em projetos educativos, palavras ou propostas que violam esse direito essencial.
Artigo 19
Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras.
Enquanto não tivermos acesso amplo e democrático dos meios de comunicação, este direito permanecer ainda incompleto. Com a Internet avançou-se, mas ainda não chegamos ao um ponto justo. Ataques ao Marco Zero da Internet, monopólios midiáticos, a pauperização de aparelhos públicos culturais e educacionais são no momento as maiores faltas.
Artigo 26
I) Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnica
profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
II) A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
III) Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.
I) Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnica
profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
II) A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
III) Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.
Entretanto, ainda não vimos no país um real esforço pela democratização do ensino. Seguimos enfrentando políticas de sucateamento, com grande interferencia de grupos privados que visam tornar o direito humano à educação em mercadoria para lucro de poucos em detrimento da necessidade de muitos.
Artigo 27
I) Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do progresso científico e de fruir de seus benefícios.
II) Toda pessoa tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica, literária ou artística da qual seja autor.
I) Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do progresso científico e de fruir de seus benefícios.
II) Toda pessoa tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica, literária ou artística da qual seja autor.
Aqui falamos de direitos autorais, estes que devem atender tanto ao público quanto ao criador da obra artística. Quando interagimos com as artes, é preciso ter em mente suas funções sociais. Elas devem se fazer acessível, têm valor de registro de sua época, é direito do público saber a quem creditar a obra e é direito de quem a cria ter seus valores morais e materiais salvaguardados.
Repare que nenhum destes parágrafos especifica o que é cultura, ou o que é melhor ou pior em termos de artes e manifestações culturais. O que temos como "cultura" é uma construção de determinada época, região, e tem intenção ideológica nela. Ou seja: a cultura não é um conceito absoluto. Aliás, devemos nos acostumar a questionar sempre o que nos é dado como dogma, como determinado, como ideia única, como única história.
É preciso aprender a desconstruir narrativas que nos chegam cristalizadas, para se aproximar.
Nos definimos em oposição ao outro. Assim a mulher se define em oposição ao homem – que hegemoniza a cultura a partir de seu ponto de vista. E o negro se define em face ao branco, que da mesma forma dominou as narrativas. O negro é contado à partir do centro branco, masculino, heterossexual e rico.
De sua ilha de privilégio, não cabe ao homem, branco, hetero, rico, romper com as estruturas opressoras de narrativas. Ele está cego em sua posição, sob holofotes que o perseguem desde o dia em que nasceu, quiçá até antes. Caberá àquelas e aqueles que tiveram seu protagonismo suprimido, libertar o mundo da narrativa hegemônica, do discurso alienante. Simplesmente porque, apenas elas e eles, tem o que é necessário: que são suas próprias narrativas. São as histórias das periferias, de quem lutou pelo direito de viver, sobreviver, da poesia das quebradas, da música marginal, dos ranchos, dos toques dos atabaques, das vielas, das celas, dos cárceres, dos abrigos, dos hospícios, dos campos, dos cantos dos amordaçados de um país onde cada cabeça pode propor um novo universo.
Nós, humanos, somos construídos pelas narrativas das quais dispomos. Com elas nos definimos. A religião é uma narrativa, a forma como lidamos com nossos familiares também, nossas crenças no que é bom de se comer, falar, são histórias que "colaram" em nós. Sociedades são construídas através dos pontos em comum das narrativas de seus membros. Mesmo a história oficial de um povo não é mais do que uma narrativa única, incompleta, alienante do que foi o real daquelas pessoas que nos precederam. Não à toa, Joel Rufino escreveu seus tomos onde resgatou as narrativas de nossa história do Brasil contada por classes nunca antes ouvidas, e não à toa, teve sua obra destruída e foi cassado pelo governo militar da Ditadura, que mais que tudo, só pode dominar suprimindo violentamente todas as narrativas que não a sua.
E de onde vêm essas narrativas?
Vem de nossos pais, da vó que contava a história antes de dormir, dos "causos" contados à mesa de jantar ou na roda de viola, da fofoca das vizinhas, da novela das oito, do âncora engravatado do jornal nacional, dos filmes blockbusters estrangeiros monopolizando as telas dos cinemas… Elas nos definem, e não é fácil resistir à elas, especialmente quando se é uma criança. Narrativas nos conformam ou revoltam, dependendo de quem a conta. Podem domar os desejos e manter um país inteiro sujeito à condições péssimas para seu povo, porque fizeram-no crer de quem tem de ser assim, mas também podem despertar consciências, uma crítica lúcida sobre o porquê do estados das coisas que nos oprimem.
Uma das narrativas mais perigosas que podem nos imprimir, é a de que somos inimigos. Pense em alguém, qualquer pessoa, que de alguma forma lhe inspira raiva, ou repulsa. Pense em como se formou esse sentimento em você. Foi alguém que lhe ensinou ou algo que leu? Foi esta pessoa que lhe fez ou falou algo rude? De qualquer forma, o quanto sabe a respeito desta pessoa que justifique a encarar como um inimigo e não uma igual? Em outras palavras, quais foram as narrativas sobre ela que teve acesso?
Alienar-se do outro é negar suas outras narrativas. Conhecê-las é se aproximar, humanizar. Mesmo o pior dos inimigos, tem em si um conto de afeto, de ternura. Compreender é abrir possibilidade de se conviver, de respeito mútuo.
Portanto, se pretendemos uma sociedade pacífica, justa e harmoniosa, é urgente que se inicie tornando possível que todos possam contar suas próprias histórias, e o que é mais importante de tudo: serem ouvidos.
Meu convite portanto é esse: vamos nos organizar de formas a que isso aconteça aqui dentro do Novo Degase?
Thais Linhares – Diretora Administrativa Adjunta do Instituto de Defensores de Direitos Humanos – DDH, vice-presidenta da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantojuvenil – AEILIJ.
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Novo DEGASE
sexta-feira, julho 29, 2016
FRENTE FAVELA BRASIL – nova política, novo Brasil.
Jessé Andarilho de Antares, poeta-escritor, fala sobre o novo partido Frente Favela Brasil. Clica pra ouvir. Novo movimento político que se coloca à frente da nova política brasileira, protagonizado por negros com origem nas favelas.
Importante entender: o Brasil é negro. Foi e é construído pelo trabalho negro e, infelizmente, com custos altos para essa população. São hiper-explorados – a relação de mais valia é maior quanto mais escura a pele – são as maiores vítimas de mortes violentas e violações de direitos humanos.
Ao mesmo tempo, é na efervescência cultural que brota desta dor as mais belas manifestações de arte, educação e cultura. Favelas são laboratórios de humanidades. Ali a sociedade impera sobre o mercado (monopólio dos ricos, voluntariamente segregados da vida comum), a economia é solidária e em muitos pontos mais forte do que o mundo do financismo.
Não vejo nada que se compare à força que emerge das favelas, num compasso organizado, quase como uma canção de guerra, seja no funk ou no jongo ancestral (que quando se unem são imbatíveis).
Sentada, silenciosa, no meio daquela festa onde se marcava um momento histórico, na favela mais antiga do Brasil – Morro da Providência, construída por ex-combatentes de Canudos – não fiz mais do que vibrar com a energia transformadora daquelas pessoas, de peles coloridas e utopias, agora possíveis.
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domingo, julho 24, 2016
Missa em Memória das Vítimas da Chacina da Candelária
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sábado, abril 09, 2016
Ninho de Livros
- O Ninho de livros é um projeto que instala pequenas bibliotecas colaborativas por nossa cidade,criando espaço para que seus livros voltem a voar por ai.
Casinhas, como as de passarinho, são colocadas em postes, praças, parques escolas e onde mais der. O objetivo desses espaços é que o público possa trocar livros de maneira simples e rápida. Funciona mais ou menos assim:
1. Você abre a casinha2. Escolhe o livro3. Coloca outro livro4. Boa leitura.Simples, rápido e colaborativo :)O Ninho de livro é uma iniciativa da Satrápia, uma agência de benfeitorias para cidades. Quer saber mais sobre a gente? www.satrapia.com.br
Recentemente entraram no projeto a Compactor e a AEILIJ – Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, e foi através desta última que entrei também.
Tudo começou com a Cris Alhadeff, ilustradora e amiga das criadoras do projeto, pintando uma das casinhas-ninho-de-livros.
As casinhas:
Cris é esposa do Alex Gomes, escritor e presidente da AEILIJ. Daí surgiu a ideia de colocar a Associação como apoiadora e chamar mais ilustradores de literatura pra crianças e jovens.
Formamos um grupo inicial de dez ilustradores, cada um pegou um ninho e começou a "ilustrá-lo". A Cris também já estava articulando apoio com a Compactor. E daí surgiram as doações do material de pintura/desenho.
São canetas especiais da Compactor.
Pra desenhar sobre madeira, porcelana, tecido...
Incluindo cores metálicas.
Aqui um ninho
com uma leitora colhendo os livros,
ou plantando outros pra troca.
Aqui na foto temos dois conjuntos (usei os dois, pra testar bem).
Um é tipo "marcadores", com transparência, faz o efeito do pilot tradicional.
O outro é opaco, o efeito é como se eu estivesse desenhando com uma tinta de parede (fica totalmente impermeável).
Ganhei também uma lapiseira, o que foi muito bom,
porque a minha deste tipo eu perdera.
Aqui as marcadoras, no sol a tinta é fluorescente!
A linha preta eu usei a canetinha opaca.
Dourado na capa da anadarilha das nuvens.
Vermelho marcador, pra transparência.
Moldura preta é acrílica comum.
Do outro lado eu coloquei menina com leão.
Essa é a imagem que simboliza a Força e a Coragem.
Agora já finalizada:
Aqui a alegoria da Liberdade e Amor:
Andarilha das Nuvens e sua amiga unicórnio:
E, o momento esperado! O Ninho vai para seu lugar, na Cidade de Deus.
Acompanhe a página do Projeto Ninho de Livros!
Atualizando: 7/5/2016 fui na Flupp-Pensa e aproveitei pra tirar foto com o "meu" Ninho lá na Cidade de Deus!
Aninhei mais 4 livros e uma edição da Vírus.
E peguei pra mim o "Tartufo" de Moliére, mais "Amarcord" de Fellini!
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